A ciência aberta na USP

Por Sylvio Canuto, pró-reitor de Pesquisa da USP; Debora Rejane Fior Chadi, professora do Instituto de Biociências da USP; e Fausto Medeiros Mendes, professor da Faculdade de Odontologia da USP

Sylvio Canuto – Foto: IEA-USP

Debora Rejane Fior Chadi – Foto: IEA-USP

 

Fausto Medeiros Mendes – Foto: Arquivo pessoal

Foi lançado, no dia 26 de outubro, o Portal USP de Ciência Aberta, por meio de um trabalho envolvendo a Pró-Reitoria de Pesquisa, a Agência USP de Gestão da Informação Acadêmica (Aguia) e a Superintendência de Tecnologia da Informação (STI).Durante o lançamento do portal, o magnífico reitor, prof. Vahan Agopyan, e o pró-reitor de Pesquisa, prof. Sylvio Canuto, também publicaram a Declaração USP de Apoio à Ciência Aberta, o que pode ser encontrado na íntegra no portal. Nesse mesmo dia, foi anunciado que a USP, a partir daquele momento, era signatária da Declaração de São Francisco sobre Avaliação da Pesquisa (Dora – The Declaration on Research Assessment), se juntando a  milhares de instituições e pesquisadores de 150 países no mundo.

A busca pela excelência acadêmica e científica requer parâmetros que possam servir de guia de avaliação. Ao longo dos últimos anos, indicadores numéricos foram estabelecidos e nota-se que distorções foram criadas, em escala mundial. Iniciativas mais amplas são necessárias.

A Universidade de São Paulo caminha em consonância com o movimento mundial de adoção dos princípios e práticas da Ciência Aberta. A Dora recomenda às instituições que explicitem os critérios utilizados para tomar decisões sobre contratação de novos docentes, assim como na progressão da carreira, enfatizando, especialmente para pesquisadores que estão em início de carreira, que o conteúdo científico de um artigo é muito mais importante do que as métricas de publicação ou a identidade da revista em que foi publicado.

Recomenda também que a avaliação da pesquisa na instituição considere o valor e o impacto de todos os seus resultados (incluindo conjuntos de dados e software), além de publicações, e uma ampla gama de medidas de impacto, incluindo indicadores qualitativos de impacto da pesquisa, tais como sua influência na formulação de políticas públicas.

Do mesmo modo, a Dora  faz algumas recomendações ao pesquisador que envolvem uma mudança de cultura. Por exemplo, quando envolvido em avaliações, deve-se priorizar o conteúdo científico sobre métricas de publicação; se necessário utilize uma gama diversa de métricas e indicadores; e priorize citar a literatura primária dando o devido crédito. É importante desafiar as atuais práticas de avaliação que usam inadequadamente o fator de impacto para que se possa promover o valor e influência dos resultados e produtos específicos de pesquisa.

Essa mudança de cultura já teve início com algumas ações pontuais e agora precisa ser ampliada para que possa ser, de fato, consolidada. Isso significa apontar na direção de uma avaliação que combina qualidade e quantidade. Para isso, ela precisa ser recomendada e apoiada na instituição. É necessário deixar claros os incentivos advindos desta prática e facilitar a sua implementação, sendo importante que os diferentes setores da universidade trabalhem juntos neste caminho. Também é importante que a Ciência Aberta passe a fazer parte do nosso cotidiano de pesquisa.

No Portal de Ciência Aberta da USP se encontram as principais informações relacionadas ao tema. A essência da Ciência Aberta é que todas as etapas envolvidas no processo de construção da ciência sejam transparentes e acessíveis à sociedade como um todo e não fiquem restritas à comunidade acadêmica.

Resumidamente, a Ciência Aberta é sustentada por alguns pilares fundamentais, que são o acesso aberto à produção científica acadêmica, acesso aberto aos dados e métodos de pesquisa quando possível, o compartilhamento de infraestruturas abertas de apoio à pesquisa, a promoção da ciência cidadã, a promoção de boas práticas, ética e integridade na pesquisa, o incentivo ao uso de métricas responsáveis de avaliação, dentre outros.

A infraestrutura compartilhada é uma das bases da Ciência Aberta. Os resultados que ao final vão aparecer na forma de um artigo científico, uma tese, etc., vêm da interação do pesquisador com a infraestrutura de pesquisa e com seus pares. A infraestrutura é vista como um ecossistema de pesquisa onde tudo pode ser compartilhado, equipamentos, softwares, estrutura de nuvem, etc., propiciando maior oportunidade para chegar mais rápido ao desenvolvimento tecnológico e à inovação.

Esse compartilhamento permite também o acesso de empresas, facilitando o desenvolvimento de projetos conjuntos em benefício da sociedade. É digno enfatizar que a USP foi pioneira nessas plataformas compartilhadas, como o USPMulti e a Nuvem USP, que mostram o comprometimento da Universidade com o compartilhamento de infraestrutura, especialmente a que foi decorrente de investimento público.

O compartilhamento de dados permite também aferir a reprodutibilidade, elemento essencial no avanço do conhecimento de pesquisa, e contribui para o aprimoramento das questões éticas.

A ciência aberta preconiza que os dados devem ser disponibilizados sempre que possível e protegidos sempre que necessário. Assim, é importante saber mais sobre a gestão de dados científicos, como elaborar um plano de gestão de dados no momento que se planeja um projeto e depois como colocar seus dados no repositório. O repositório também serve para preservação dos dados para que eles possam ser reutilizáveis. Os dados podem suscitar novas ideias e novos projetos, otimizando recursos e facilitando mais avanço de conhecimento.

Aqui, mais uma vez a USP foi pioneira na constituição do seu repositório de dados, que está em funcionamento desde 2019. Além de criar seu repositório, a USP, por meio da STI, integrou os repositórios de dados das universidades públicas paulistas de forma  a integrar a busca de informação em todas elas. Essa questão é importante já que a Fapesp está exigindo o plano de gestão de dados para alguns projetos, assim como boa parte das agências internacionais.

Na Ciência Aberta, a sociedade tem atenção primordial. A pesquisa que foi financiada com recurso público é um bem da sociedade, ou seja, ela precisa estar disponível de forma pública e acessível assim que possível e com a responsabilidade necessária. A sociedade deve ter acesso aos resultados de pesquisa, aos seus benefícios e ser participativa no seu desenvolvimento para que possa acelerar a resolução dos grandes problemas da atualidade e do futuro.

É necessário criar mecanismos para aproximar a ciência e a sociedade, contornando possíveis dificuldades de pequenos grupos e indivíduos de se aproximar de uma estrutura grande como a Universidade. É uma necessidade da Universidade criar estratégias para essa aproximação.

Exemplos são as iniciativas de ciência cidadã, que têm se consolidado como uma nova forma de interação entre os cientistas profissionais e os cidadãos, permitindo que estes participem de atividades formais de pesquisa desenvolvidas nos principais centros de investigação do mundo. No portal, você encontra alguns projetos de ciência cidadã desenvolvidos na USP, assim como outras iniciativas de aproximação com a sociedade.

Quando o pesquisador finaliza parte de sua pesquisa e publica seus resultados científicos, pode fazer isso de forma aberta. O acesso aberto contempla, então, a comunicação da ciência entre os cientistas e permite seu acesso por pessoas de fora da academia, aumentando a circulação da informação científica, o interesse pela ciência e a reutilização de dados.

Essa visibilidade é importante, pois permite mais acessibilidade, para que as pessoas possam ter acesso ao que é produzido aqui e poder utilizar esse conhecimento. A forma de publicar em acesso aberto ainda é fonte de grandes discussões, as quais são pertinentes e necessárias. No entanto, a USP, desde 2012, conta com a Biblioteca Digital da Produção Intelectual, a qual pode ser facilmente acessada pelo portal, além de outros repositórios e diferentes bibliotecas temáticas.

Visite o Portal USP de Ciência Aberta e colabore enviando perguntas, sugestões e novas ideias (cienciaaberta@usp.br). Qualquer pessoa da comunidade acadêmica ou da sociedade pode interagir com a ciência aberta por meio do portal. Participe!